segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Por que Kill la Kill não é nada machista apesar da imagem que eu vou postar agora

 Eu realmente não sei porque, mas sempre que eu argumento a favor de alguma coisa eu começo tentando me sabotar. Acho que a minha lógica é que se eu não conseguir lidar com o aspecto mais controverso do meu argumento de cara é melhor desistir de uma vez.

 Bem... Essa é a protagonista... Ryuko... Ela se veste assim em todos os episódios. Todos. E essa é Satsuki, ela é a principal antagonista e ela também se veste assim toda a hora.

 Pra entender a mensagem de Kill la Kill é preciso entender um pouco sobre anime, especialmente shounen (animes para garoto), porque, peitos e bundas desse tipo são o mais padrão nos animes Shounen Ecchi (anime para garotos sexualizado). E Kill la Kill não tem um episódio sem que uma garota acabe com a bunda na tela, os peitos balançando e coisas como essa.

 Mas o que eu acho é que a proposta de Kill la Kill é que essas coisas não importam, que apenas sexualização não é algo ruim em si, mas que o problema de verdade está na objetificação, e acreditem se quiser, eu não acredito que Kill la Kill tenha um pingo de objetificação... Apensar disso.

 Agora vamos ficar chic por um momento: O dicionário de Stanford define objetificação como:
-Instrumentalidade; o tratamento de uma pessoa como uma ferramenta para o proposito do objetificador.
-Negação de autonomia; o tratamento de uma pessoa como se ela não possuísse autonomia e auto-determinação.
-Inércia; Tratamento de uma pessoa como se ela não tivesse controle ou talvez atividade.
-Fungibilidade; O tratamento de uma pessoa como facilmente substituível por outras.
-Violabilidade; tratar uma pessoa como incapaz de manter a integridade dos seus limites.
-Posse; Tratar uma pessoa como sendo a propriedade de outra.
-Negação de subjetividade; Tratar uma pessoa partindo do princípio que suas experiências e sentimentos não precisam ser considerados
(E essas três definições, escritas posteriormente pela professora Rae Langton, que eu considero menos concisas que as originais)
-Redução ao corpo; Tratamento de uma pessoa como se ela fosse o seu corpo, ou partes do seu corpo.
-Redução a aparência; Tratamento de uma pessoa baseado primariamente na sua aparência, ou como essa aparência  é interpretada por outros
E finalmente:
-Silenciamento: Tratar uma pessoa como se esta fosse muda, incapaz de falar (ou talvez melhor dizendo, incapaz de se comunicar, se expressar)

 Eu me senti obrigado a por essa definição não apenas pois eu acredito que a maioria das pessoas discute objetificação sem uma base própria, mas porque EU não tinha tal base e achei importante explicar passo a passo porque eu acredito que Kill la Kill não se encaixa nos parâmetros da objetificação com NENHUM dos seus personagens.

 Ler a definição formal e traduzi-la para cá me deu tempo de reavaliar meus argumentos, eu estou feliz de constatar que realmente, Kill la Kill não é uma obra de objetificação.

 Primeiramente; Todos os personagens são independentes de outros personagens, com seus próprios desejos e métodos, frequentemente conflitando um com o outro; Dois, Todos os personagens tomam decisões e performam ações que afetam como eles se posicionam no mundo e como o mundo interage com eles, a autodeterminação da protagonista é uma das forças motoras pro trás da trama; Três, novamente, todos os personagens tomam ações, a maior parte delas decisões conscientes; Quatro, cada personagem é único em habilidade, competência e personalidade, a protagonista e a antagonista não só são ambas tratadas como tendo habilidades incomparáveis como tais habilidades são outra das forças motoras da trama; Cinco, em algumas ocasiões os limited de certos personagens são atacados e ditos personagens conseguem proteger seus próprios limites; Seis, não há posse em nenhum momento do anime até agora; Sete, todas as personagens, mas especialmente a protagonista e a antagonista, tem suas opiniões, experiências e habilidades sempre consideradas e respeitadas pelos outros personagens; Oito, apesar de ter muita sexualização, partes do corpo nunca são a única coisa sobre a personagem, ou mesmo a coisa mais importante; Nove, apesar de muitos personagens serem consideráveis bonitos dentro dos padrões da série, em nenhum momento isso é um fator; E finalmente, os personagens expressam sua opinião constantemente e isso é um ponto importante da trama nos primeiros três episódios.

 Ok, isso foi muito maçante, então toma aqui uma foto da Mako:
 Eu amo a Mako.

 Bem, essa trambelhada toda foi pra acabar com uma concepção errônea, se tem peitos na tela é clara indicação de objetificação.

 É MAXISTA! MAXISTA! OIA OS PEITO DELA! SÃO BUNITU! ISU É MAXISTA!

 E não me levem a mal, eu sou completamente a favor do feminismo, mas eu acho que sair atirando por tolos os lados faz mais mal do que bem, obras como Kill la Kill devem ser celebradas! É uma obra defensora do feminismo, mas contra o bom comportamento, é a favor que não só mulheres, mas pessoas no geral saiam das pré-concepções da sociedade e se permitam ser, bem, o que diabos elas quiserem!

 Muitas pessoas confundem objetificação com sexualização, objetificação sendo sempre ruim quando se trata de um ser humano, mas sexualização é algo bem debatível. Muita gente acha que sexualização é sempre ruim, no geral ruim ou frequentemente ruim. Kill la Kill (assim como eu) é da opinião que sexualização não é por si só algo ruim.

 Sexualização e a excitação causada por ela não são coisas ruins ou negativas, não implicam uma relação se superioridade ou de dominância. Tesão sexual não é necessariamente ruim, na verdade, eu acho que quando não corrompido por forças negativas, é uma coisa muito boa!

 E sexualização pode ser um indicativo de verdadeiro progresso social, o direito sobre o próprio corpo e como representa-lo é uma das facetas mais antigas da luta feminista. Ambas as protagonistas (e eu considero a Satsuki uma das protagonistas) de Kill la Kill se vestem de forma fetichista e exibicionista, mas isso não é ruim, pois é por escolha delas (apesar da relutância de Ryuko no começo), Satsuki especialmente considera irrelevante a forma que ela se veste pois é a forma que ela é mais poderosa. E daí que ela está quase nua, isso não faz dela uma pessoa melhor ou pior.

 Kill la Kill sexualiza alguns seus personagens, em parte por que sexualização sem objetificação é bem legal, quem sente atração pelo corpo feminino ou masculino (ou ambos!) gosta de ver tal corpo e isso é perfeitamente normal, mas também para mandar um dedo do meio pra essa força opressora dentro do feminismo que dita que tudo que é sexualizado é machista. E é bom que façam isso pois tal força opressora camuflada tem se tornado um dos maiores inimigos do verdadeiro feminismo.
 É importante saber celebrar a sexualidade.

 Mas não só isso, a sexualização basicamente absurda traz um tom de sátira que só fica verdadeiramente aparente conforme o espectador começa a perceber a tridimensionalidade da trama, do ambiente e dos personagens. Qualquer pessoa que tenha conhecimento do gênero ao ver o primeiro episódio já percebe que a sexualização em Kill la Kill é a sua sexualização normal em um anime shounen elevado ao cubo. Connoiseurs de anime não vão demorar a compreender, graças a tal exagero, que se trata de uma paródia, de um comentário no gênero. Comentário que vai passar direto pela cabeça de pessoas que não entendem nada do assunto. para elas vai parecer apenas mais um anime ecchi que foi longe demais.

 E isso para fim faz a sexualização em Kill la Kill algo profundamente genial, que mostra um domínio do gênero e da ideologia soberbos por parte dos autores, da mesma forma que Hotline miami fez com violência em video games (o comentarista de games, Satchell Drakes fez um excelente vídeo se aprofundando mais nesse conceito que você realmente deveria ver aqui),m pode parecer loucura, mas o que diferencia Killa la Kill de milhares de outros animes é o uso espetacular de sexualidade, o que o faz elevar ainda mais no meu conceito.

 Quantas obras você conhece que usam sexualidade para formar um comentário profundo sobre teoria feminista, objetificação e sexualização em anime e mangá e tudo isso sem diluir as cenas de ação e integra-las do desenvolvimento de personagens e progressão natural da trama?
 Kill la Kill é um anime, não, uma obra única!

 Num mundo onde poucas obras -e apenas as melhores- conseguem integrar a sexualidade na trama e conceito, Kill la Kill a usa como a coluna vertebral dos seus amplos e profundos comentários em assuntos extremamente sérios e relevantes.

 E ainda tem cenas de porrada extremamente bem feitas, excitantes, intensas, rápidas, variadas e com uma boa progressão e peso na história. Pra mim isso é de quebrar a cabeça tentando entender como é possível.
 Esse é o professor Aikuro, um dos personagens mais objetificados do Anime. Eu imagino que ele tenha surgido como uma resposta a sexualização das mulheres em Kill la Kill, mas como todos os personagens da série, ele logo se desenvolve bastante.

 Eu realmente poderia ficar elogiando Kill la Kill por horas e horas. Por exemplo, desenvolver mais porque as lutas são tão incríveis quanto elas são, falar sobre os comentários que Kill la Kill faz nas instituições de ensino, e na sociedade japonesas, a elegância da arte (especialmente os subtemas sadomasoquistas) e como Nui harime é a Pinkie Pie + Charles Mason. Mas eu acho que esse artigo já ficou muito denso e já fugiu demais da proposta original.

 Eu só quis publicar pois essa obra me instigou muito intelectualmente, me fez ponderar muito e reavaliar algumas das minhas concepções, não virou a minha vida de cabeça pra baixo, mas teve algum impacto e importância em mim. E no final do dia isso é o melhor que uma obra de arte pode querer.

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